Por que o sol 'muda de lugar' em Curitiba ao longo do ano? Entenda como a latitude da cidade afeta casas, apartamentos e até o varal de roupas

  • 09/09/2026
(Foto: Reprodução)
Por que o sol 'muda de lugar' em Curitiba ao longo do ano? O Sol que ilumina Curitiba é o mesmo que ilumina o restante do mundo, mas, diferente do que acontece em regiões mais próximas à Linha do Equador, ele nunca fica exatamente sobre a cabeça de quem olha para o céu a partir da cidade. Na capital paranaense, o astro percorre uma trajetória "inclinada", característica que ajuda a explicar desde as sombras da cidade até a forma como casas e prédios são projetados. ✅ Siga o canal do g1 PR no WhatsApp Isso, porém, não acontece porque o Sol "muda de posição" ou "evita" Curitiba. Na verdade, o fenômeno ocorre em todo o planeta, porque o eixo da Terra é inclinado em cerca de 23,5°. O que muda é o quanto essa variação fica perceptível. No caso de Curitiba, isso é bastante notável porque a cidade está a cerca de 25° de latitude sul. 🗺️ A latitude é a distância de um ponto em relação à Linha do Equador. Quanto maior essa distância, mais inclinada tende a ser a trajetória aparente do Sol ao longo do ano. Dessa forma, na prática, o que muda não é a posição do Sol, mas o ângulo sob o qual ele é visto ao longo do ano, resultado da latitude de Curitiba e da inclinação do eixo terrestre. "Cada latitude em si tem a sua perspectiva. Ela varia muito pouco de uma cidade para outra, mas, se nós pegarmos um país continental, como é o caso do Brasil, isso é bastante notório", explica o professor Amauri José da Luz Pereira, coordenador do Observatório Astronômico e Planetário do Colégio Estadual do Paraná (CEP). Trajetória do sol em junho e em dezembro em cidade com a latitude de Curitiba Fabio Furtado/Artes/RPC Como isso te afeta? Não é porque o Sol está a 149,6 milhões de quilômetros de distância da Terra que essa variação não nos afeta diretamente. No dia a dia, esse fenômeno pode ser percebido de várias formas. Viviane Paiva é natural de Roraima, onde viveu a maior parte da vida. O estado é cortado pela Linha do Equador. Nessa localização, é possível ver o Sol exatamente sobre a cabeça do observador em determinadas épocas do ano. Em 2025, ela se mudou para Curitiba e, enquanto vivia a rotina de dona de casa, começou a perceber a diferença na posição do sol entre as regiões. "Eu vi que eu estendia minha roupa, o sol do meio-dia ficava no meio e eu achava normal. Quando começou o outono, eu comecei a perceber uma leve diferença, só que ainda não tinha associado. Agora, no inverno, estendendo a roupa no mesmo lugar, eu percebi que, quando dava meio-dia, o sol já não estava mais pegando na minha varandinha", conta. Depois de notar o fenômeno, Paiva precisou reorganizar a dinâmica para secar as roupas em casa: "Percebi que eu consigo pegar sol mais cedo lá na minha área de serviço. Porém, quando dá meio-dia, já não tem mais sol lá, atrás da casa. Eu consigo estender roupa agora na parte da frente da minha casa", detalha. A mesma lógica que mudou o local onde Viviane seca as roupas é usada por arquitetos e engenheiros para definir a posição de janelas e a distribuição de ambientes, como destaca a engenheira civil Luana Caroline Schneider, que trabalha com eficiência de edificações. "A trajetória do Sol determina onde a luz e onde o calor vão entrar nessa casa ao longo do dia e também ao longo das estações do ano. Esse comportamento influencia diretamente se essa casa vai ser muito quente, se vai ser muito fria, se vai ter iluminação natural e até mesmo o quanto essa construção vai consumir de energia...", exemplifica. Caroline destaca que duas casas com plantas muito parecidas podem proporcionar níveis de conforto diferentes, dependendo da orientação solar e das condições climáticas da cidade onde foram construídas. Conforme a engenheira, o cenário de temperaturas extremas e eventos climáticos frequentes faz com que compreender a posição do astro deixe de ser um detalhe técnico e passe a ser uma necessidade. "A trajetória do sol é uma das informações mais importantes dentro de um projeto, na hora de começar a pensar numa construção. Só que ela faz parte de um conjunto de estratégias. Então, uma casa confortável nasce da combinação de vários fatores. Tem a orientação solar, tem a ventilação natural, as proteções solares, materiais adequados e um projeto pensado para o clima daquela cidade... É justamente essa integração que vai fazer a diferença no dia a dia de quem vai morar ali ou vai usufruir dessa construção", destaca. Pelo mesmo motivo, apartamentos com face voltada para o norte são, em geral, os mais cobiçados no mercado imobiliário da capital paranaense. A engenheira detalha que, como o Sol se inclina para o norte, o imóvel tende a ser aquecido de forma mais equilibrada, mantendo a casa quente no inverno. LEIA TAMBÉM: Ciência: Descoberta de nova espécie de sapo com 13 mm reforça reivindicação de proteção de montanhas entre PR e SC Natureza: Baleia jubarte e raias são registradas em baía Patrimônio Natural da Humanidade no litoral do Paraná Educação: Após universidade em que estudava ser bombardeada na Síria, ela encontrou acolhimento na UFPR e inspirou a criação de novas políticas públicas Em Curitiba, Sol não fica "a pino" nem no Solstício de Verão Sol visto da Praça das Nações, em Curitiba Levy Ferreira/SMCS O momento em que o Sol atinge o ponto mais alto no céu, ou seja, um ângulo de 90° em relação ao horizonte, é chamado de zênite solar. Neste momento, o astro fica exatamente "a pino" sobre a cabeça do observador. No planeta, esse fenômeno só ocorre nas regiões localizadas entre o Trópico de Capricórnio e o Trópico de Câncer. A capital paranaense está logo abaixo do Trópico de Capricórnio e, por isso, o Sol nunca atinge o "zênite absoluto". No Hemisfério Sul, por volta de 21 ou 22 de dezembro, acontece o Solstício de Verão, fenômeno astronômico que faz com que o primeiro dia da estação seja o mais longo do ano. Nesse dia, o Sol atinge a máxima aproximação do zênite em Curitiba, alcançando uma elevação de cerca de 88° em relação ao horizonte no meio-dia solar. Embora visualmente pareça estar "a pino", geometricamente ele ainda estará ligeiramente inclinado para o Norte. Por esse motivo, mudanças nas estações são mais perceptíveis Mudança das estações é muito mais perceptível em Curitiba e em outras cidades que estejam na mesma latitude que a capital paranaense RPC Por causa desse "Sol inclinado", a mudança das estações é muito mais perceptível em Curitiba e em outras cidades que estejam na mesma latitude que a capital paranaense. No verão, o Sol nasce mais ao sudeste, sobe muito alto no céu, se põe mais ao sudoeste e os dias são mais longos. Já as noites são mais curtas. No inverno, o Sol nasce mais ao nordeste, faz um "arco" mais baixo e se põe mais ao noroeste. Por isso, os dias são mais curtos e as noites são mais longas. 🌅 Por exemplo, no inverno, o Sol nasce por volta das 07h e se põe às 17h30. Já no verão, os dias amanhecem perto das 05h20 e anoitecem perto das 19h10. Por conta disso, uma janela que pega sol direto no verão pode quase não receber sol no inverno, e vice-versa. Em uma região com uma latitude diferente, a distribuição dos dias é outra. No verão do hemisfério Norte, por exemplo, os raios solares atingem mais essa região e menos o hemisfério Sul, que registra dias menos duradouros. Em alguns casos, há períodos em que, mesmo com o Sol se pondo, ele permanece um pouco abaixo da linha do horizonte, deixando a noite "clara" ou iluminada. Em São Petersburgo, na Rússia, esse fenômeno é chamado de "Noites Brancas" e a cidade vive uma forte efervescência cultural. Lá, esses "longos dias" se tornaram, inclusive, pano de fundo para obras literárias, como o livro "Noites Brancas", do russo Fiódor Dostoiévski, publicado em 1848. As Noites Brancas em São Petersburgo acontecem entre o fim de junho e começo de julho Dmitry Ermakov/NurPhoto via AFP/Arquivo Em Curitiba faz mais frio por causa disso? Curitiba, por estar em uma latitude mais alta do que regiões próximas ao Equador, recebe os raios solares de forma mais inclinada e, no inverno, tem dias mais curtos e noites mais longas. Isso reduz a quantidade de energia solar que aquece a superfície. Segundo o professor Amauri José da Luz Pereira, a inclinação do eixo de rotação da Terra em relação ao plano de sua órbita ao redor do Sol é fundamental para a definição das estações do ano. "No inverno, você tem menos tempo de exposição aos raios solares, então você acaba iluminando menos essa 'calota'. É o contrário no verão, em que você vai ter muito mais tempo de insolação", explica. Resumidamente, como no verão o Sol está alto no céu, a energia fica mais concentrada, uma vez que os dias são mais longos e a incidência dos raios na superfície do planeta é mais direta. Durante o inverno, o Sol está mais baixo no céu, os raios solares incidem em um ângulo mais inclinado e se dispersam. Dessa forma, cada metro quadrado daquele hemisfério da Terra recebe menos calor e a temperatura cai. No inverno, Curitiba tem dias mais curtos e noites mais longas Giuliano Gomes/PR Press VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná Leia mais notícias no g1 Paraná.

FONTE: https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2026/09/09/por-que-o-sol-muda-de-lugar-em-curitiba-ao-longo-do-ano-entenda-como-a-latitude-da-cidade-afeta-casas-apartamentos-e-ate-o-varal-de-roupas.ghtml


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